Oscar 2016 – Melhor Roteiro Adaptado

The_Martian_review

Então ainda dá tempo pra falar um pouco do Oscar deste ano e suas duas principais categorias: roteiro original e adaptado. Todo mundo sabe que esses são os prêmios mais esperados da noite. Milhares de pessoas ficam acordadas apenas querendo saber quais foram os contemplados com a estatueta nesses… Ok, parei.

Primeiro, dando uns pitacos entre as adaptações. Ainda não me conformo com a ausência de Aaron Sorkin e seu Steve Jobs  entre os indicados. Só comprova a má vontade com o filme (e com Sorkin, que consegue arrecadar a mesma quantidade de defensores quanto de detratores).

Mas se algum filme ano passado adaptou uma obra literária, esse foi Steve Jobs. Sorkin não apenas mexeu com trechos do livro de Walter Isaacson, como também fez entrevistas e acrescentou informações ao já ótimo texto original. Além disso, há diálogos brilhantes numa estrutura das mais interessantes e provocativas (mais nesse texto).

Tá bom, chega de mimimi. No fim, há coisas bem razoáveis competindo. E mais: os roteiros apontam para uma interessante diversidade. Há dois filmes de meninos e três com meninas protagonistas (aliás, um sobre ser mãe, outro sobre ser mulher e um sobre se tornar mulher).

Vamos ao que interessa.

QUEM DEVERIA GANHAR – Se o mundo fosse realmente um lugar justo e blábláblá, teríamos empate. O experiente e inteligente Drew Goddard por Perdido em Marte merece todas as honras por lidar com um material bem complicadinho. Temos um homem confinado num planeta distante plantando batatas. Incomunicável, deve sobreviver por uns quatro anos até encontrar alguém que ofereça ajuda. Difícil transformar isso em filme, até porque já usaram todas as boas ideias para esse tipo de situação em O Náufrago. Mas Drew injetou muito humor na trama e conseguiu explorar bem os outros dois núcleos: a tripulação na nave e a turma da Nasa na Terra. Essa triangulação sustenta o filme e Matt Damon se mostrou o cara perfeito para nos seduzir. O roteiro funciona como um relógio, cheio de viradas, surpresas e desafios. Méritos também do livro de Andy Weir, que tem esse DNA cômico.

Já em O Quarto de Jack temos outro tipo de confinamento. Brie Larson e o espetacular Jacob Tremblay estão presos numa espécie de garagem. Ela há sete anos. Ele há cinco. A relação entre mãe e filho pauta a primeira parte do filme. Não importa onde você está. Criar outro ser é oferecer para a criança uma narrativa sobre o mundo. Emma Donoghue estreia adaptando seu próprio livro. Muitas vezes isso apenas prejudica o resultado final nas telas, afinal o escritor se apega a coisas que não necessariamente ajudam o material cinematográfico (aqui ela explica um super dilema que enfrentou no processo). Mas os dois blocos do filme se sustentam às vezes brilhantemente. E aquele suspense no meio é de arrepiar. Sem dúvida a obra mais sentimental do Oscar este ano.

 

QUEM VAI GANHAR – Ainda não entendi nada de A Grande Aposta, o filme sobre a derrocada do planeta em 2008. Adam McKay (também o diretor) e Charles Randolph adaptaram o livro de Michael Lewis (de fato, um baita escritor de não ficção). Vamos lá, o início é promissor. As gracinhas encontram eco e parece que vamos assistir a uma comédia aloprada sobre a Bolsa de Valores. Pois é. O material começa a ficar mais denso, as histórias pesam e aquelas piadinhas que antes pareciam te salvar do tédio acabam entrando no mesmo saco de todas as outras chatices. As interrupções começam a pentelhar e nem o extraordinário elenco parece te levar para algum lugar. Confesso: em algum momento eu desisti e passei a pensar em como a Dilma pode sustentar a governabilidade pelos próximos dois anos. Achei mais fácil. Mas críticos e membros da Academia amam esse filme. Localmente, ele diz muito mesmo. E Adam McKay é um dos grandes diretores de comédias dos últimos 20 anos. Tentar fazer graça de algo traumatizante pode ativar o tal alívio cômico. Deve ter algo bom aí, mas realmente não peguei.

 

OS OUTROS – Nick Hornby é o Chico Buarque dos roteiros de Hollywood. Ele é um dos meus autores favoritos (sei que você já leu Funny Girl e achou demais) e tem feito um ótimo trabalho com mulheres protagonizando filmes (isso porque ele despontou na literatura retratando meninos). Sua adaptação de Brooklyn, livro do ótimo Colm Tóibín, é lindamente fofinha. Mas é isso. O resto da minha opinião está nessa crítica de Inácio Araújo (o lance de reparar mais no título em português do filme do que na própria obra é genial).

E então chegamos ao também bonito Carol, escrito por Phyllis Nagy, baseado no livro de Patricia Highsmith. A frieza (tristeza?) da fotografia, tudo melancolicamente parecendo quadros de Edward Hopper, e a exuberância das duas atrizes principais (igualmente frias e tristes) já dizem tudo. Nem o sexo parece evocar alguma quentura. O problema pra mim é que em nenhum momento o romance me convence. Todd Haynes, o diretor, parece muito mais encantado com a forma do que com o conteúdo. As personagens navegam vazias no meio de nuvens. Tudo parece meio embaçado na relação entre elas, o que atrapalha qualquer envolvimento. Ou eu simplesmente estava num dia ruim.

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