Clichês

cliche

Enfrentar o clichê num roteiro é como jogar contra o Barcelona: provavelmente você vai perder de goleada, mas se ganhar pode se considerar um herói (mas só o fato de ter encarado a partida já é bem legal).

Como tenho pouco a perder, afinal já estamos acostumados a ver roteiristas na fila do desemprego, prefiro arriscar tudo. Feito o Nicolas Cage em Despedida em Las Vegas, às vezes me embebedo de clichê barato e fico ali jogando à toa na roleta pra ver se cola. Gosto mesmo de apostar na mesmice e de repente tirar a sorte grande.

Atire o primeiro roteiro aquele que nunca apelou para um clichê (e deu certo!).

Já vi histórias de grandiosos sucessos (alguém falou sobre os últimos 1.307 blockbusters?) acontecerem só porque souberam lidar muito bem com coisinhas que exploraram em outros 7.509 filmes. Mas também observei redundantes fracassos só porque um personagem repetiu: “Siga aquele táxi”.

Ok, você sabe que estou mentindo. Vamos ser sinceros. Um filme geralmente fracassa porque é ruim mesmo, não somente por ser recheado de clichês.

Enfim, parodiando Ferreira Gullar: o clichê não foi feito para humilhar ninguém.

Se a gente usa com parcimônia e elegância, é como aquele inevitável traje de gala no casamento chique do seu primo coxinha.

Clichê, assim como um discurso do Jabor, é inofensivo e até engraçadinho.

O incrível Go Into the Story listou alguns deles nesse artigo. Os dez primeiros:

  • I was born ready.
  • Are you sitting down?
  • Let’s get out of here!
  • _____ my middle name.
  • Is that all you got?
  • I’m just getting started.
  • Are you thinking what I’m thinking?
  • Don’t you die on me!
  • Tell my wife and kids I love them.
  • Breathe, dammit!

Sim, já usei todas essas frases. Não é assim na vida, gente?

E querem saber de uma coisa? Falam tanto dos clichês que nós, roteiristas, escrevemos, mas ninguém comenta sobre os clichês que jogam sobre o nosso trabalho de roteiristas (tá, comentam sim, até porque roubei essa pauta de alguns comentários do generoso amigo Thiago Dottori).

Inevitavelmente, se você escreveu alguma coisa e mostrou para alguém, vai ouvir:

1 “Gostei. Mas esse personagem aqui não faria isso. Melhor mudar. Porque não combina com ele.”

Resposta: No caso, ele faz isso sim, até porque está fazendo. E quem escreveu isso? Então. Ele faz o que a gente escreve. Que coisa, não? Você acredita em Deus? Pois é. Também acho que o pessoal não deveria desviar verba da saúde para uma conta bancária na Suíça que nunca será usada. Não consigo entender. Mas eles fazem isso.

2 “Não, não, não. Narração em off. Pra quê? Narração em off destrói qualquer filme. Não precisa contar alguma coisa que estamos vendo.”

Resposta: Oi? Geralmente o sujeito nem sabe o que voice over significa. Ignore. Mostre os primeiros minutos de Crepúsculo dos Deuses, Os Bons Companheiros ou até mesmo Tropa de Elite e pergunte se voice over não funciona. É um dos recursos mais eficientes de todos os tempos da narrativa cinematográfica (e jovens amam, não tem um sucesso para o público de 18 anos hoje sem o inevitável “Eu nasci no meio de uma família pobre…”).

3 “Está muito longo. E não acontece nada nos primeiros dez minutos. Cadê a reviravolta? Dá pra começar com um flashback? Você leu McKee? Pois é, fiz os cursos dele no Rio. Não sei, falta punch. E aquele personagem… Cadê o payoff?”

Resposta: Já ouvi isso de produtores que leram um projeto que começava com um flashback e tinha todas essas trolhas burocráticas (e muitas vezes abençoadas) que citaram. Quando perguntei o que ele queria dizer, já que o filme contemplava as dúvidas dele, o sujeito fingiu que engasgou com o amendoim e nunca mais voltou do banheiro. Sempre tente argumentar falando sobre seu roteiro. Não são todos os leitores que de fato leram, entendeu? Se começam a usar muito jargão de estrutura, desconfie.

4 “Gostei muito. Mas não vende. Funciona, só que ninguém quer ver isso.”

Resposta: Droga, o desgraçado pode ter razão.

*

Realmente não sei como TODO o país não está neste momento revendo o documentário Entreatos, de João Moreira Salles. Só eu acho uma das melhores coisas já feitas para entender o país?

A sequência inicial do trecho abaixo, antes do último debate de Lula com Serra nas eleições de 2002, é absurdamente reveladora. Observe como Lula está rodeado de pessoas, mas parece sempre imerso nos próprios pensamentos, deixando claro que ele vai tomar as decisões que quiser tomar (aqui ótimo texto de João Moreira Salles sobre a atual crise). A cara dele ao ouvir as dicas de Duda Mendonça é impagável. E José Dirceu solta pelo menos duas pérolas: a tranquilidade do banho de banheira e o profético: “Não está acabando, está começando”.

E ao mesmo tempo aquele final é tão clichê… O mocinho é o Suplicy!

Só está começando mesmo.

 

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