Aquarius

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Trecho da entrevista de Marcelo Pinheiro com Kleber Mendonça Filho publicada na edição de agosto da revista Brasileiros. Aqui, o diretor de Aquarius fala sobre roteiro.

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Kleber Mendonça Filho – Para mim, é muito provável que a boa escrita resulte de treinamento. Claro, deve existir algum tipo de talento que define quem escreve bem e quem escreve mal. Existem grandes jornalistas e outros ruins; existem escritores incríveis e escritores medíocres – e a história está aí para mostrar quem são eles.

A escrita é um campo misterioso do pensamento. Você demonstra admiração pelo roteiro e me sinto lisonjeado que o texto desperte esse tipo de reação, mas não sei bem explicar por que Aquarius tem um bom roteiro, exceto pelo fato de que, para mim, antes de um filme existir ele tem que fisgar as pessoas a partir das palavras. E sempre que converso com amigos sobre meus roteiros meio que saco se eles estão falando do texto como se ele fosse o próprio filme.

Um bom roteiro de cinema precisa ter muita força de sugestão. Recebo muitos roteiros para avaliação, costumo ler alguns deles antes de dormir e existem aqueles que imediatamente me levam para a cama e outros que, em vez disso, causam insônia. Tem muito roteiro que não passa de um reles amontoado de papel.

Em um bom roteiro, o drama, os conflitos e as situações precisam ser muito claras, precisam ter força. Coisas que também determinam a boa literatura. Não estou dizendo que eu faço boa literatura, mas, antes de filmar, preciso ter orgulho de mostrar para alguém o que escrevi.

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Abaixo, pequena resenha que escrevi para a revista Rolling Stone sobre esse extraordinário Aquarius.

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Uma providência a se tomar antes de assistir ao filme é deixar fora da sala de cinema o protesto anti-impeachment que a equipe do longa realizou no festival de Cannes deste ano.

A obra do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho (O Som ao Redor) não é um panfleto político e muito menos defende os petistas. O longa toma partido de apenas uma pessoa: a personagem Clara (Sonia Braga, estupenda), jornalista e crítica musical aposentada que mora no charmoso edifício Aquarius, um reduto das memórias dela (ou mesmo do estado de espírito de um país que passa por mudanças sem volta) na orla mais famosa de Recife.

Narrado em três capítulos e com uma trilha sonora irretocável (Maria Bethânia, Queen, Gilberto Gil), o filme mostra a luta de uma mulher contra um câncer, empreiteiras e o processo de envelhecimento. Utilizando enquadramentos invulgares e temas urgentes espalhados aqui e ali, Aquarius evidencia com rigor e beleza um notável exercício de resistência.

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